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Bastaram duas horas para o clima de tranquilidade se esvair do Complexo
Prisional do Curado (antigo Aníbal Bruno), na Zona Oeste do Recife.
Após um início de manhã calmo, informações sobre novos tumultos
chegaram aos familiares que esperam notícias dos detentos nos portões da
unidade nesta terça-feira (20), um dia depois da rebelião que acabou
com a morte de um reeducando e um policial militar. Por volta das 10h,
tiros voltaram a ser ouvidos dentro do presídio. O Batalhão de Choque
foi acionado e entrou na unidade por volta do meio-dia. Três viaturas do
Corpo de Bombeiros também estão de prontidão no local.
No início da tarde, tiros e barulhos de bombas voltaram são escutados
do lado de fora do presídio. Uma enfermeira que estava dentro do
complexo saiu para buscar material de primeiros socorros e conversou com
o G1. "O clima está muito tenso, eles não estão
acalmando. É muita pedrada, tiro. Eles estão reagindo de maneira muito
agressiva", relatou.
saiba mais
O presidente do Sindicato dos Agentes Penitenciários, João Carvalho,
contou que os internos das três unidades que integram o complexo
quebraram os cadeados das celas e tomaram o pátio do presídio. "O clima é
de turbulência, então nós temos que estar em constante atuação para
evitar maiores transtornos nos pavimentos. Os tiros ouvidos são de
contenção, para evitar algo mais grave". Ele acrescentou que presos
armados com facões estão em cima de um pavilhão. Um grupo de internos
subiu em uma laje e mostrou uma faixa informando que, ao todo, houve 6
mortes na rebelião de segunda-feira.
Alguns dos presentes contaram que conversaram ao telefone com os presos
e souberam que a rebelião iria recomeçar. Um dos detentos falou até que
os portões do pavilhão B haviam sido derrubados, mas nenhum agente
penitenciário confirmou a informação. Um dos oficiais relatou apenas que
os detentos ainda estão rebelados e um policial militar disse que
internos atearam fogo em entulhos, mas logo ressaltou que o princípio de
tumulto havia sido controlado com tranquilidade.
Agentes do Grupo de Apoio Tático Itinerante (Gati) da PM também estão
no local. Os oficiais ainda informaram que, como é de costume após a
ocorrência de rebeliões, os presos devem ser novamente revistados nesta
terça.
Já no Presídio Marcelo Francisco de Araújo, vizinho ao primeiro, o
maior movimento é de familiares. Muitas mulheres passaram a noite no
portão da unidade à espera de notícias sobre o estado de saúde dos
detentos. No final da noite de segunda (19), a Seres informou que 29
detentos estavam feridos. No entanto, às 9h, os agentes penitenciários
mostraram uma lista com 27 nomes para os familiares. Desses, 14 estão
internados nos hospitais Otávio de Freitas, Getúlio Vargas e
Restauração. Outros 12 já receberam alta e estão na enfermaria do
complexo. O outro preso foi o que faleceu na segunda. Mesmo assim, os
presos afirmam que houve mais mortes. A Seres, no entanto, só confirma
as mortes do sargento da PM e de um dos detentos.
Os detentos do Presídio Frei Damião de Bonzano, o terceiro integrando
do Complexo Penitenciário do Curado, também estão em rebelião. Soltos,
eles estão em cima dos pavilhões e colocaram uma caixa de som para se
comunicar com a família e reforçar suas reivindicações. 'Queremos
celeridade nos processos' e 'Se não tirarem o juiz Luiz Rocha, nós vamos
botar para quebrar' foram alguns dos recados dados durante a manhã. Os
presos ainda pediram paz. Ao ouvir a voz dos familiares, muitas das
mulheres que permaneciam de vigília no lado de fora na unidade
comemoraram o bom estado de saúde dos detentos.
Segurança foi reforçada após início de novo tumulto no antigo Aníbal Bruno (Foto: Marina Barbosa/G1)
Vigília de familiares
Um grupo de familiares continua fazendo vigília para ter notícia dos parentes que estão detidos. Logo no início da manhã, um agente penitenciário apresentou a lista de detentos feridos para os parentes. De acordo com os agentes, foram 29 feridos e um morto, além do policial morto que foi baleado e não resistiu ao ferimento. Mesmo assim, muitos continuam em dúvida sobre o estado de saúde dos internos. "Eles disseram que só foi um morto, mas vi o carro do IML [Instituto de Medicina Legal] entrar duas vezes. À noite, teve confusão também. Teve carro da polícia, ambulância", contou a mãe de um dos internos, Severina Ferreira, 52, que chegou à meia-noite no Aníbal Bruno.
Geane Alves da Silva, 40, diz que também não confia no balanço
apresentado pelos agentes penitenciários porque ouviu dois tiros durante
a noite. "Por volta da 1h da madrugada, a gente viu uma fumaça, os
policiais andando pelo muro. Ainda ouvi dois tiros. Achei que ia começar
tudo de novo", disse. O Batalhão de Choque foi visto dentro do complexo
no início desta manhã, mas ainda não se sabe se a Polícia Militar já
deixou o presídio.
Parentes mostram cápsulas de projéteis que teriam sidodisparos na confusão (Foto: Marina Barbosa/G1)
Tumulto na madrugada
A esposa de um dos presos contou ao G1 que foi presa na madrugada desta terça (20) depois de protestar contra a falta de informação sobre o estado de saúde dos reeducandos. A jovem que preferiu não se identificar disse que escreveu um recado aos policiais no asfalto com mais duas mulheres, mas a ação foi gravada pela câmera de monitoramento da Secretaria de Defesa Social. "Eles chegaram, perguntaram quem fez aquilo e nos levaram para a delegacia, no Centro da cidade. Foram tirando onda o caminho todo. Passei a noite lá, só fui liberada agora pela manhã. Mesmo com fome, cansada e suja, voltei para cá porque preciso saber como meu marido está", afirmou.
Por volta das 8h, dois carros da Secretaria Executiva de
Ressocialização chegaram ao portão do Aníbal Bruno. Os agentes
penitenciários informaram que iriam levar detentos para audiências no
Fórum de São Lourenço, Grande Recife. No entanto, as viaturas não
chegaram a entrar no presídio. Uma delas foi embora com os reeducandos
de outra unidade do complexo penitenciário. Já a segunda continua no
portão do Aníbal e quatro de seus oficiais entraram na unidade. Um deles
falou que os detentos ainda estão "rebelados".
Superlotação, armas e festas
Formado por três presídios, o Complexo do Curado (antigo Aníbal Bruno) é o maior do estado. As unidades têm capacidade para 1.800 presos, mas atualmente abrigam 7.000. A confusão ocorre no mesmo pavilhão onde, no início do mês, um cinegrafista da TV Globo captou imagens de presos utilizando facões e celulares. Um vídeo mostrando a realização de festas e fabricação de cachaça artesanal na unidade também foi divulgado. Após as denúncias, o governo do estado prometeu reforçar a segurança e adotar medidas para evitar problemas no presídio.
BPChoque da PM entrou no presídio por volta do meio-dia desta terça (Foto: Marina Barbosa/G1)
BPChoque se concentra em uma das entradas do antigo Aníbal Bruno (Foto: Marina Barbosa/G1)
Grupo
de internos subiu em uma laje e exibiu uma faixa informando que, ao
todo, houve 6 mortes na rebelião de segunda-feira (Foto: Marina
Barbosa/G1)
Agentes do Grupo de Apoio Tático Itinerante (Gati) da PM também estão no local (Foto: Marina Barbosa/G1)- Gerar link
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